Se o primeiro volume nos convidou a revisitar o acidente com o césio-137 sob a ótica do medo vivido e sentido nas ruas de Goiânia, neste segundo, mergulhamos ainda mais fundo — não apenas nas memórias, mas nas imagens que moldaram e amplificaram esse medo. Aqui, o foco se desloca para o papel do audiovisual, da linguagem cinematográfica e da estética do pânico que se reverberou na cultura popular.
Ao longo das páginas deste volume, somos levados a refletir sobre como o medo foi encenado, dramatizado e, muitas vezes, espetacularizado. A tragédia real, com suas vítimas, suas dores e seus silêncios, foi transformada em narrativa midiática, em roteiro de horror, em cenas que mais lembravam filmes apocalípticos do que reportagens jornalísticas. O acidente radiológico de Goiânia não apenas contaminou corpos — contaminou também imaginários.
Este volume propõe ainda, uma radiografia crítica desse medo encenado: como o césio-137 foi representado nas telas, nas dramatizações e até mesmo nas reações espontâneas captadas pelas câmeras, sobretudo nos discursos que atravessaram o cotidiano da população goianiense, revelando não apenas uma tragédia sanitária, mas também uma crise simbólica. A representação do césio-137 ultrapassou os limites da informação técnica e adentrou o território da ficção emocional, onde o medo foi moldado por imagens, gestos e narrativas que reforçavam o desconhecimento e alimentavam o pânico. Ao analisar essas dramatizações, o volume evidencia como a linguagem audiovisual contribuiu para a construção de um imaginário coletivo marcado pela desconfiança, pela estigmatização e pela sensação de vulnerabilidade extrema — elementos que, mais do que informar, performaram o medo como espetáculo.
Mais do que uma análise técnica ou histórica, este estudo é um convite à consciência. Ao revisitar os registros audiovisuais da época, buscamos compreender como o medo foi construído, disseminado e perpetuado. E, ao fazê-lo, abrimos espaço para desconstruí-lo — para que a memória não seja apenas dor, mas também aprendizado.
Porque o medo, quando não compreendido, vira pânico. E o pânico, quando alimentado por imagens distorcidas, pode ser tão nocivo quanto a própria radiação.
Este volume é, portanto, uma lente sobre o passado — uma lente que nos permite enxergar com mais clareza os mecanismos da comunicação, os limites da empatia e a urgência da responsabilidade. Que esta radiografia do medo nos leve a iluminar os caminhos da verdade, da solidariedade e da justiça. Que a memória de Leide das Neves e de todos os afetados por essa tragédia continue a nos guiar — não como espectros do horror, mas como faróis da consciência coletiva.
Eurípedes Monteiro de Oliveira Júnior
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