Se nos volumes anteriores revisitamos o medo sentido nas ruas e encenado nas telas, este terceiro capítulo nos convida a examinar o papel central da imprensa escrita — especialmente das revistas semanais e dos jornais de grande circulação — na construção, amplificação e perpetuação do pânico coletivo que se seguiu ao acidente com o césio-137 em Goiânia.
Aqui, o foco recai sobre as manchetes, os enquadramentos narrativos, os vocabulários escolhidos e os silêncios estratégicos que moldaram a percepção pública da tragédia. A imprensa, ao invés de atuar como mediadora responsável da informação, muitas vezes assumiu o papel de protagonista na dramaturgia do medo. Reportagens sensacionalistas, títulos alarmantes e imagens impactantes contribuíram para transformar o acidente radiológico em um espetáculo de horror — não apenas informando, mas performando o pânico.
A imagem do repórter agachado, com o microfone esticado, tentando evitar uma radiação que não se transmite pelo ar como um vírus, é emblemática. Ela revela não apenas o desconhecimento técnico, mas a força simbólica do medo — um medo que se move, que se espalha, que se performa.
Este volume propõe ainda, uma análise crítica da cobertura jornalística da época, examinando como o discurso midiático ajudou a cristalizar estigmas, alimentar preconceitos e intensificar o isolamento social dos moradores de Goiânia. A rejeição de produtos goianos, o medo irracional da contaminação por contato indireto, e até mesmo a discriminação de pessoas que apenas residiam na cidade são reflexos diretos de uma narrativa construída com pouca responsabilidade e muita teatralidade.
Ao folhear as páginas deste estudo, somos convidados a refletir sobre o poder das palavras impressas — como elas podem informar, mas também deformar; como podem esclarecer, mas também obscurecer. A imprensa, quando movida pelo imediatismo e pela busca de impacto, pode se tornar agente de desinformação e sofrimento.
Este volume é, portanto, um chamado à ética jornalística, à memória crítica e à responsabilidade comunicacional. Revisitar as manchetes é revisitar os medos que elas criaram, os estigmas que perpetuaram e as feridas que ainda hoje não cicatrizaram por completo.
Que este olhar sobre o jornalismo nos ajude a compreender que, em tempos de crise, a informação não é apenas um direito — é também um dever. E que a memória de Leide das Neves e de todos os afetados pelo acidente com o césio-137 continue a iluminar o caminho da verdade, da empatia e da justiça.
Maurineide Alves
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